Smelly Fish

Vendo uma matéria sobre a venda de bacalhau na semana santa, e a indústria pesqueira da Noruega, me veio a dúvida (besta): quanto a Noruega exporta de peixe, inclusive o bacalhau, por supuesto. Este não é meu métier, mas tenho obsessão por estatísticas. Acredito que a verdade está nos números, sempre e quando não haja manipulação e safadeza.

Foi fácil: US$ 7.5 bilhões de dólares é o que exporta a indústria de pesca norueguesa; equivale a 1.5% do seu PIB (www.eurofish.dk, 2015). A questão seguinte: e o Brasil? Com a extensão que tem, não só de costa, mas também de rios, deve ser bastante, embora longe dos vikings. Achar os números não foi muito fácil. Consegui encontrar o “1o. Anuário Brasileiro da Pesca e Aquicultura”, publicado em 2014 (os números, no entanto são de 2011 e 2012…). Não entendi o porque deste ser o primeiro anuário, pois o ministério da pesca e aquicultura foi criado em 2003 (e sepultado em 2015). O anuário tem mais de 130 páginas, mas é pobre em estatísticas. Tem muita foto, ilustração e anúncio. O Estado de Santa Catarina comprou 3 páginas, em que mostra alguns “peixões”, daqueles que ficam deitadas na areia tomando sol. Enfim, divago…

Para números os “Estudos Mercadológicos de Aquicultura” do Sebrae de 2015 são infinitamente melhores e mais sérios: o Brasil exporta US$ 200 milhões de dólares ao ano e – curiosamente – 50% a menos do que 2003, quando foi criado o ministério da pesca. Nossas exportações de pescado equivalem a um retumbante 0,01% do PIB brasileiro. Logo… a Noruega exporta 37,5 vezes mais peixe que no Brasil.

Sou um crítico das análises de valores absolutos exclusivamente, então pensei num ratio que desse luz à análise, e cheguei a um fator de exportação por “km de beira”. Me explico. “Beira” se refere a extensão da costa e rios, portanto para o Brasil:

7.941 km de costa + 25.000 km de rios = 32.941 km de “beira”

Dividindo nossa  exportação de US$ 200 milhões por 32.941 km de beira, chegamos a  US$ 6,07 por km de beira. Noruega: US$ 7,5 bilhões divididos por 6.250 km de beira (extensão “pescável”, não inclui os fiordes). Logo cada km de beira da Noruega, produz US$ 1.200,00 em exportações de pescado. Conclusão: cada km de beira norueguês é 198 vezes mais produtivo que o similar nacional. Pesca-FactSheet

Não analisei a fundo os dados de consumo doméstico lá e cá. Os fatores culturais, históricos, etc. influem. Mas um dado chama atenção: o Brasil importa US$ 1.3 bilhões em pescado anualmente. Isso mesmo, temos um déficit na balança comercial de pescados de US$ 1.1 bilhão. Como é possível? Com tanta “beira” dando sopa? Com um ministério totalmente dedicado à pesca? Com fomento ao investimento custeado pelos nossos bolsos? STOP. Este é um ponto importante: o Anuário relata todos as possíveis fontes de financiamento ao alcance das indústrias, indivíduos, famílias, microempresas através dos programas do PRONAF, PNFC e PNHR. Melhor sentar-se:

  • Microcrédito Produtivo Pesca e Aquicultura
  • Microcrédito Produtivo Pesca e Aquicultura – PRONAF MULHER
  • Pesca e Aquicultura Familiar
  • Mulher Pesca e Aquicultura
  • Jovem Pesca e Aquicultura
  • Pesca e Aquicultura para Agregação de Renda
  • Pesca e Aquicultura Agroindústrias Familiares
  • Pesca e Aquicultura Cotas Partes
  • Crédito de Investimento Mais Alimentos
  • Crédito de Investimento Mais Alimentos – Programa Revitaliza
  • Programa Nacional de Crédito Fundiário
  • Programa Nacional de Habitação Rural

O valor dos empréstimos varia de R$ 2.500,00 (Microcréditos) até R$ 30 milhões (Cooperativas Centrais de Agroindústria Familiar). ­­Isto, com prazos para pagar de 2 a 20 anos, carências de até 3 anos e juros anuais que variam de 0,5% a estratosféricos 4,0%.

Agora compreendo meu Tio Lula, cantando em nossas pescarias no rio Paranapanema:

“Não quero outra vida
Pescando no rio de Gereré
Tem um peixe bom
Tem siri patola
De dá com o pé”

Sábio homem.

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