Tudo bem, você pode protestar e falar que a qualidade detergente é a última das prioridades de nosso país – ou que não tem nada de errado com nossos detergentes, que a louça fica muito bem lavada, obrigado.

O que estou tentando fazer aqui é uma reflexão sobre qualidade de produto, e como calibramos o que é o “padrão” ou o “normal” tem a ver com o referencial que adotamos. E qual o preço que estamos dispostos a pagar. Vamos lá.

Depois de lavar louça por anos, com o detergente americano Dawn que minha mulher achava no Sam’s Club aqui em São Paulo, me encontro numa situação em que estou hospedado numa casa de amigos que usam Limpol. A primeira vez que fui lavar um prato, me decepcionei: o líquido é “fino” demais, anêmico, faz pouca espuma. Escorre pelo prato como se fosse água. Talvez minha percepção estivesse enviesada por um “efeito placebo”, pela crença de que tudo que é importado dos EUA é melhor?

Porém…como estou me mudando, e tirei tudo de meu apartamento para a entrada do novo inquilino, um Dawn ainda pela metade acabou por vir comigo. Logo, tinha condições de fazer uma comparação”, ainda que um tanto subjetiva.

Em primeiro lugar, virei o frasco de Limpol e o líquido escorre quase sem precisar apertar. Ao colocar na esponja, ele é rapidamente absorvido e faz uma quantidade pequena de espuma quando ponho um pouco de água. Tenho que voltar a colocar mais detergente após poucas peças. Dawn: coloca-se um pouco (tem que apertar o frasco), um pouco d’água e a espuma é farta, encorpada. Ao passar num prato, o recobre com uma espuma branca e abundante, suficiente para muita louça e talher.

Para dar uma ideia da consistência dos produtos, pus uma quantidade igual de detergente numa mesma esponja. Pela foto, parece que coloquei mais Dawn, mas o que ocorreu é que a marca brasileira foi absorvida mais rapidamente.

Dawn-vs-Limpol

Segunda prova: coloquei um pouco de cada detergente na esponja, um pouco de água e a espremi três vezes. O resultado aparece foto abaixo. Ainda que visualmente não pareçam tão diferentes, a consistência da espuma da marca estrangeira é muito mais robusta.

Dawn-vs-Limpol-pt2

Existe todo um capítulo à parte com respeito ao marketing de cada marca, a qualidade do rótulo, do frasco (por que o frasco de Limpol fica “sujo”? Algo sério para um produto que se propõe a limpar). E os “claims” promocionais? Compare…

DAWN LIMPOL
·      CLEANS greasy dishes 2x more (Limpa pratos gordurosos 2 vezes mais)

·      With active SUDS (com espuma ativa)

·      Dawn helps SAVE THE WILDLIFE (Dawn ajuda a salvar os animais)

·      ULTRA (Ultra…)

·      Eliminador de Odores

·      Concentrado

·      Novo

·      Testado Dermatologicamente

·      Aloe Vera

O benefício de DAWN é claro: limpa pratos gordurosos 2 vezes mais. Lógico. O que o consumidor mais quer de um detergente? Que limpe bem. Se limpar pratos gordurosos, melhor. Se limpar pratos gordurosos 2 vezes mais, muito melhor! O benefício de LIMPOL? “Eliminador de Odores”? Teu prato pode estar com pedaços de comida grudados nele, mas quem liga? Vai cheirar bem, isso vai. Além de tudo o aroma de aloe vera não me convence.

DAWN: com espuma ativa? Quem não quer? Parece que a espuma vai (pro-ativamente) pular no prato e fazer a limpeza sozinha. E “ajuda a salvar os animais”? Além de eficaz é ecologicamente consciente!!! Só não me pergunte como DAWN salva os patinhos. Talvez a espuma ativa se voluntarie para limpar as aves vítimas de vazamentos de navios petroleiros. ULTRA! Todos sabem que tudo que é ULTRA é melhor.

LIMPOL: Novo (novo? De verdade??). Concentrado? Só se for no sentido de absorto, meditabundo, por que na consistência…). Dois “overpromises” descarados. E “testado dermatologicamente”? Uau, que boa ideia testar na pele um produto que vai ser usado com as mãos… mas e o resultado do teste, qual foi?  Quem sabe testaram dermatologicamente e… a pele descascou e ficou em carne-viva. As unhas caíram. Ok, ok, estou forçando um pouco a barra. Mas talvez “aprovado por dermatologistas” fosse um atributo que seria percebido como muito mais positivo.

Um último ponto: preço. Limpol, no Walmart, R$ 1,74 / 500 ml. DAWN na Target, US$ 6.49 / 1656 ml. Convertendo-se ao câmbio e ajustando PIB per capita de cada país, falamos de R$ 3,48 / litro para Limpol e R$ 3.52 / litro para DAWN. Mas deveríamos também calcular o rendimento. Quantos pratos eu limpo com um litro de Limpol vs. quantos usando um litro de DAWN? Posso assegurar que um litro de DAWN limpa bem mais do que 3 vezes louça que um litro de Limpol), o que torna DAWN um produto com custo-benefício muito superior. E olha que Limpol é um dos melhores detergentes do Brasil – nem quero imaginar os outros.

Tenho um amigo que trabalhava no marketing internacional de uma grande multinacional de produtos de limpeza (NÃO é a Bombril). Uma vez lhe perguntei como administravam os preços dos produtos nos diversos países. A resposta: determinamos o preço de acordo com a renda média de cada geografia. Aí perguntei como aceitavam trabalhar com margens de lucro mais baixas nos países mais pobres, onde iam cobrar necessariamente preços mais baixos. Ele respondeu que todos países operavam com a mesma lucratividade. Qual o segredo desse milagre, perguntei mais uma vez. Fácil, disse ele: diluição. Quanto menor a renda média (e consequentemente o preço), mais água a gente põe na fórmula comercializada no país.

Então para o Brasil tudo bem! Água no feijão, álcool na gasolina, etc etc. Por que não água no detergente? Diluição é com a gente mesmo.

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