Algo que aprendi ao longo de todos os meus anos no marketing farmacêutico é que a velha expressão “nunca diga nunca” não pode ser subestimada. Parece lugar comum – você a lê, concorda e ignora. É uma daquelas coisas que você tem que viver e depois ver que o que todos disseram que nunca aconteceria acaba de acontecer.

Lembro de alguns casos. Após o lançamento da política de medicamentos genéricos no Brasil em 1999, todos disseram – o que mais? – Isso nunca vai funcionar. Os médicos nunca permitirão que seu poder de receitar o que é melhor para seus pacientes seja ignorado. Os genéricos transformaram toda a indústria farmacêutica. Os estrategistas de marketing não perceberam que havia um ator mais poderoso do que a classe médica: um ministro da saúde com imensa ambição política e uma grande verba de comunicação para convencer a população.

Outros exemplos: os ginecologistas nunca permitiriam que as mulheres fossem vacinadas durante a gravidez; os médicos nunca abraçariam a promoção remota. Sobre este último: eu ainda acredito que nada substitui o representante interagindo com o profissional de saúde na vida real (mas eu posso estar errado).

E mais: as consultas médicas nunca aconteceriam remotamente, o que inclui telefone, vídeo ou qualquer outra forma de comunicação indireta. Os médicos tinham que ver, tocar, medir a temperatura, sentir o pulso, perceber a disposição do paciente.

Então veio o WhatsApp. Um amigo, médico, enquanto janta em algum restaurante costuma receber fotos enviadas pelos pacientes. Às vezes, de hemorroidas, algo que não o incomoda, mas tira o apetite das companhias de jantar (nota aos leitores: meu amigo jamais divulgou a identidade de qualquer paciente). Mas foto por WhatsApp é algo informal, e nenhuma associação médica disse que essa forma de interação médico-paciente fosse aceitável.

Mas agora esse “nunca vai acontecer” acaba de acontecer. Estou morando nos EUA e meu plano de saúde é a UnitedHealthcare. Há alguns dias, recebi um e-mail deles lançando, junto a campanhas digitais e analógicas, o programa “Consulta Virtual.”

Funciona assim: você entra on-line, conversa com um médico através de uma câmera e, se o problema for simples, você recebe recomendações médicas que podem incluir uma receita. Todos acham que a iniciativa vai ser um enorme sucesso, afinal é um win-win. Os pacientes economizam tempo e dinheiro e horas ou dias de sofrimento. O plano de saúde economiza dinheiro. Os pediatras podem dormir enquanto seu colega de turno noturno on-line avalia a aparência do cocô de um recém-nascido (este é o comercial de TV deles).

Isso é um avanço? Isso é bom ou ruim para a saúde? Isso é uma moda passageira? A mesma coisa vai acontecer no Brasil? Ou em nossa cultura, o vínculo pessoal médico-paciente é muito mais forte? Deixo a resposta com você.

Só, por favor, não diga “isso nunca vai acontecer”.

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