O medo da meningite meningocócica marcou minha geração: quem estava no “primário” ou no “ginásio” nos anos 70 nunca vai esquecer. O que foi uma epidemia – e não podia ser chamada de epidemia – foi anunciada em 1972 na capa da revista Veja, e durou cinco anos. Lembro bem porque meu melhor amigo “pegou” meningite em 1976. 

Nunca saberemos quantas crianças morreram da doença nesses anos, pois o governo militar  “baniu a menção à epidemia na mídia e não revelou o número de mortes ou casos, com receio de que a associação entre a epidemia e o acelerado processo de crescimento pudesse dirigir atenção às precárias condições em que viviam os trabalhadores” (Barreto et al., The Lancet, 2011). 

Embora sem números publicados, o medo era real: quase todos nós tínhamos algum amigo que morrera de meningite. Meu cunhado, neurocirurgião na Santa Casa de Sorocaba, contava, inconformado, o número de mortes da semana em nossos almoços de domingo.

Houve outra razão para que o quadro total da epidemia não fosse conhecido. Cada estado tinha suas estatísticas, e não havia ninguém que se atrevesse a fazer a consolidação.  Por isso, quando se busca artigos científicos sobre a epidemia, se encontra apenas estudos por estado: São Paulo, Bahia, Amazonas, Santa Catarina, Paraná e mais uns poucos. Há um livro inteiro dedicado á meningite meningocócica na cidade de São Paulo escrito por alguém que esteve na linha de frente do combate: “O livro da meningite, uma doença sob a luz da cidade” de autoria do Dr. José Cássio de Moraes, da Dra. Rita Barradas Barata e de Cristina Fonseca, que pode ser encontrado nos sebos online.

O fim da epidemia começa em 1975 com a vacinação da população, graças ao auxílio do cientista francês Charles Mérieux, cujo instituto produziu 90 milhões de doses de vacina em tempo recorde. Relata-se que 95% da população de São Paulo foi vacinada em apenas quatro dias.

Quando trabalhei no marketing da Sanofi Pasteur, tive o orgulho de coordenar o lançamento de uma vacina quadrivalente contra a meningite meningocócica. Como brasileiro, este projeto teve um sabor especial para mim, uma criança que havia passado quatro anos temendo morrer ou ficar incapacitado pela meningite. E ainda mais, Charles Mérieux havia liderado a Pasteur-Mérieux: logo, eu trabalhava para a empresa que havia salvo o Brasil da meningite meningocócica.

Também ficava orgulhoso em ser brasileiro: o SUS era um exemplo de transparência e competência na área de dados epidemiológicos e de imunização. Em 2009, durante a crise do H1N1, o site Vacinômetro do SUS tinha tal granularidade de informação que podíamos (literalmente) saber o número de indígenas gestantes no município de Palmas que haviam sido vacinadas. Usava esse exemplo quando fazíamos reuniões internacionais.

Com tudo isso que vivi, pode-se imaginar meu espanto com a tentativa do governo Bolsonaro de esconder as informações epidemiológicas do covid-19.

Ou seja, recuou-se mais de 10 anos, quando o DATASUS compartilhava informação micro-gráfica e micro-populacional. Aliás, pior: recuou-se 45 anos, quando se sonegava informação de saúde que poderia haver salvo vidas. 

Assim, a saúde do Brasil coloca-se diante do seguinte dilema: ou reage contra a era de negacionismo e obscurantismo em que se meteu e resgata seu protagonismo técnico, ou abdica de sua neutralidade científica e se rende à politização da saúde.

Big Data ou No Data, eis a questão.