Por vários dias, ouvimos a mídia nos EUA analisando minunciosamente as eleições nos Estados Unidos. A CNN e outros meios sabem como as características sociais, econômicas e demográficas determinam os padrões de votação.

Está claro para eles que Arizona e Utah, embora estados vizinhos, pensam e se comportam de maneira diferente em questões políticas e sociais. Os meios de comunicação sabem que existem pelo menos duas Georgias: uma com cidades sofisticadas como Atlanta e outra com cidadezinhas retrógradas. Assim, podemos dizer que a mídia compreende o conceito mercadológico de Segmentação. Alguns políticos também empregam outro conceito mercadológico: Targeting. Eles comunican uma mensagem individualizada para cada segmento de eleitor, com base em suas necessidades e desejos. As promessas aos eleitores em New York, NY, não podem ser as mesmas para os residentes em New York, Iowa.

No entanto, a mídia não aplica o mesmo princípio de segmentação aos eleitores da América do Sul, América Central, México e Caribe que votam em eleições americanas. Ao invés, eles falam sobre o “voto latino”. Sinto em comunicar-lhes: não existe o tal do “voto latino”.

A mídia dos EUA chama de latinos à uma mistura de cidadãos de mais de 20 países, estendendo-se da Antártica até a fronteira México-EUA e cobrindo quase 30 milhões de quilômetros quadrados. Se as pessoas em dois estados americanos vizinhos podem se comportar de maneira muito diferente, como se pode imaginar que cubanos e colombianos possam ter muito em comum? Os valores, expectativas, motivações e aspirações dos cidadãos americanos nascidos em Honduras podem ser totalmente diferentes daqueles nascidos no vizinho El Salvador.

Eis aqui um ponto importante: nem todos os imigrantes legais nos EUA podem votar, apenas aqueles que têm cidadania. Assim, um mexicano com cidadania americana pode ter muito mais em comum com seu vizinho americano do que com seu compatriota que vem cortar a grama do jardim.

A mídia ficou surpresa ao ver que Trump obteve muito mais “votos latinos” na Flórida do que o esperado. Não foi exatamente assim. A verdade é que Trump se saiu muito bem entre os eleitores cubanos na Flórida, com 55% dos votos. A mensagem que ele passou aos cubanos obteve ressonância. Mas os eleitores porto-riquenhos que vivem na Flórida (porto-riquenhos também são considerados latinos) deram a Trump apenas 30% de seus votos. Parece que a atitude de Trump após a calamidade provocada na ilha pelo furacão Maria não caiu bem perante a comunidade porto-riquenha. Pensar que existe um “eleitor latino” pode levar a erros crassos nas pesquisas de intenção de votos. Suponha que você houvesse perguntado a 100 “latinos” se eles votariam em Trump. Você obteria 55 se todos eles fossem cubanos, ou 30 se fossem todos de Porto Rico. Dois resultados muito diferentes.

Os EUA deveriam reconhecer que “latino” não é mais uma forma válida de segmentar eleitores ou consumidores. Um segmento é a parte de um mercado com valores, necessidades e desejos relevantes, semelhantes e identificáveis. Não há necessidades e valores relevantes e semelhantes que justifiquem colocar argentinos, venezuelanos e equatorianos no mesmo balaio, nem mesmo o idioma espanhol.

Penso que o verdadeiro denominador comum que todos os imigrantes latinos têm é que vieram para os Estados Unidos em busca de uma vida melhor. Mas isso também é verdade para todos os imigrantes, latinos ou não, que vivem nos EUA ou em qualquer outra parte do mundo.